Como a taxa Selic afeta os investimentos no Brasil?
Na próxima quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do Brasil, Copom, irá divulgar sua decisão para a taxa Selic. O que isso significa para os investimentos financeiros no Brasil ainda é um dos tópicos mais explorados pelo público a respeito da taxa Selic.
Por que a taxa Selic afeta outros investimentos?
Quando o Banco Central do Brasil define a taxa Selic, há dois desdobramentos com vínculo legal: a atualização da remuneração das Letras Financeiras do Tesouro (LFT) e a taxa cobrada pelo próprio Banco Central em operações de venda de títulos públicos com cláusula de compra (as chamadas operações compromissadas). Por que e como isso impacta todos os investimentos financeiros no Brasil?
O mecanismo de propagação do efeito da taxa Selic começa com o que a disciplina de economia chama de custo de oportunidade. Esse conceito é relevante o suficiente para que os economistas Paul Krugman e Robin Wells sempre enfatizarem, em seus livros didáticos destinados aos bachareis de economia, que todo custo — ou preço — é sempre custo de oportunidade: quando um investidor considera comprar uma LFT, ele compara a remuneração com todas as alternativas disponíveis. Como os juros das LFTs são pagos pelo próprio governo federal na moeda do país, o risco de calote é considerado muito baixo. O governo controla a emissão de moeda; honrar o título é operacionalmente uma questão de autorizar a criação de dinheiro. Se o risco de não obter a remuneração da taxa Selic é quase inexistente ao investir em LFT, outro investimento só é atraente se remunerar acima da taxa Selic. Em finanças, essa referência recebe o nome de taxa livre de risco.
Quando a taxa Selic sobe, a remuneração de outros títulos de renda fixa — CDBs e dívidas corporativas por exemplo — precisa subir para permanecer competitiva. As ações também sentem: o custo de oportunidade de investir em ações brasileiras aumenta, comprimindo as expectativas de retorno futuro; o inverso ocorre quando a Selic cai. Há ainda o efeito microeconômico: empresas que dependem de dívida em reais veem seu custo financeiro aumentar com juros mais altos, o que, supondo inalteradas as demais circunstâncias da empresa e do mercado da empresa, pressiona lucros e a rentabilidade do acionista.
Historicamente, os rendimentos dos empréstimos de um dia entre bancos comerciais — os Certificados de Depósito Interbancário (CDI) — servem como referência dominante da taxa livre de risco no mercado brasileiro. A taxa do CDI é, na prática, muito próxima da Selic, porque os grandes bancos têm baixo risco de inadimplência e operam no maior mercado organizado de liquidação de operações de curtíssimo prazo. A taxa do CDI acompanha a Selic por força do custo de oportunidade.
Logo, quando a Selic reduz, o CDI no mesmo dia também cede. Nos fundos de previdência, isso se reflete em remuneração menor no período para os fundos classificados como Referenciado DI, que investem predominantemente em títulos de renda fixa atrelados ao CDI.
Como a taxa Selic afeta investimentos de renda fixa?
Efeito direto nos pós-fixados
Há títulos atrelados diretamente à Selic e ao CDI. Pagam juros Selic, um percentual do CDI ou o CDI mais uma taxa adicional. Aqui, o mecanismo é imediato: Selic para cima, remuneração maior a partir do dia; Selic para baixo, remuneração menor. Em fundos, isso aparece claramente na classe Referenciados DI.
Efeito de expectativa nos pré-fixados e nos indexados à inflação
Outros títulos não pagam Selic ou CDI, mas taxas fixas — caso das Letras do Tesouro Nacional (LTN). São apelidados de títulos pré-fixados no Brasil. Neles, a Selic importa sobretudo via expectativas: além do juro de hoje, conta a trajetória esperada da taxa Selic até o vencimento do título. Se os investidores esperam que a remuneração total da Selic será menor até determinada data, o preço do título de remuneração fixa de vencimento desta data fica mais caro para comprar porque sua taxa prometida ficou relativamente mais atraente; o inverso vale quando a expectativa é de aumento da Selic acumulada. O que a decisão de mudar a taxa Selic sinaliza para as próximas decisões do Banco Central é, portanto, tão relevante quanto o ajuste imediato.
Há fundos dedicados a pré-fixados, como os que seguem o índice IRF-M, que mede a rentabilidade de uma carteira teórica de títulos públicos federais nessa classe.
No Brasil também existem os títulos com valor corrigido pela inflação. Nesse caso, também importa o que os investidores esperam da evolução da taxa Selic, além da evolução da inflação. Quando a expectativa é de que os juros Selic serão gradativamente reduzidos e a inflação também reduzirá, os preços desses títulos tendem a subir, e vice-versa. Na previdência do Mio Vinci Partners, por exemplo, é possível investir em fundos atrelados a esses títulos, como fundo MIO Vinci Inflação Longa, que acompanha o índice IMA-B5+, que são os títulos com remuneração indexada ao IPCA com vencimento superior a cinco anos.
Como a taxa Selic afeta investimentos em ações?
Como custo de oportunidade
A rentabilidade de ações depende de muitas variáveis. A taxa Selic é apenas uma — todavia, uma crucial, por definir o custo de oportunidade. Tudo o mais constante, Selic menor torna ações relativamente mais atraentes; Selic maior faz o oposto. Por exemplo: o investidor fez uma análise das ações e espera que elas tenham um rendimento de 20% no ano e a Selic tenha um rendimento de 15%. Se a Selic reduziu para 14% e o investidor desejava um retorno de 15%, ele pode aceitar agora investir 20% do seu dinheiro total em ações para obter 0,8 × 14% + 0,2 × 20% = 15,2%. Se supusermos que as preferências de retorno dos investidores não mudou, mais investidores estarão dispostos a comprar ações quando a Selic reduz, e esse próprio efeito de maior demanda provoca valorização das ações no primeiro momento que o mercado de ações negocia após a atualização da Selic.
Como custo de dívida
Há também o canal do endividamento corporativo. Empresas que precisam de crédito em reais sofrem com juros mais altos; se a receita não muda, margens e lucros são comprimidos se a taxa Selic sobe. Para o investidor, diversificação é antídoto sensato para esses efeitos: fundos de ações amplos, que replicam o mercado como um todo — como fundos indexados ao Ibovespa ou ao Ibovespa B3+ —, reduzem o risco de um efeito isolado no balanço de uma empresa, ainda que não eliminem a sensibilidade a taxa Selic como um todo.
Como a taxa Selic afeta as taxas cambiais?
A taxa Selic também afeta as taxas cambiais. Ao redefinir o retorno de investimentos em reais comparados a uma outra moeda, se as condições financeiras e atratividade desta outra moeda não mudaram, uma Selic menor significa menor atratividade da renda fixa em reais e maior atratividade da moeda estrangeira. A tendência, tudo o mais constante, é de valorização da moeda estrangeira. Porém, as taxas cambiais, como ações, respondem a muitos fatores, inclusive o significado das condições financeiras sinalizado pela direção da Selic que podem inverter essa lógica.
O que fazer quando a Selic muda?
Se a decisão do Copom o deixa incerto, ou você não tem tempo de realizar uma análise de investimentos de risco e retorno detalhada, delegar a decisão do que fazer para profissionais é opção sensata. Carteiras diversificadas, geridas profissionalmente, ajustam a exposição a juros, crédito, câmbio e ações conforme o ciclo. Para quem prefere evitar riscos além da própria variação da Selic, a alternativa são fundos de renda fixa Referenciados DI.
No aplicativo de previdência do MIO Vinci Partners, você pode optar pela recomendação de investimento automática se não souber como lidar com a variação da taxa Selic. Nessa opção, o aplicativo sugere uma alocação diversificada exclusivamente baseada no seu objetivo de investimento e no seu perfil de risco. Isso é relevante porque o aplicativo não considera nenhuma espécie de remuneração dos prestadores de serviços de investimentos para essa recomendação, sendo assim livre de conflito de interesse. E para quem não tem apetite por risco, há a opção de escolher sua própria carteira e investir no MIO Vinci Referenciado DI, um fundo que busca seguir a remuneração da taxa Selic o mais próximo possível.
Para aqueles que já fizeram sua escolha com base em análise, é sempre possível rebalancear os investimentos de previdência diretamente no aplicativo do MIO Vinci Partners combinando renda fixa, ações e multimercados. Para isso, basta abrir a tela do seu plano de previdência na seção Meus Planos e clicar no botão Realocação.